Artigo retirado de:
http://www.felinus.org/index.php?area=artigo&action=show&id=937
Autor:
Becas (Fernanda Ferreira) [ Europe/Lisbon ] 2006/09/04 14:02

"Cãotradição"

No contraditório de muitos gestos e comportamentos do cidadão urbano, há hábitos que criados com a sazonalidade de modas e um deles é o de ter cães em apartamentos não preparados para o efeito e com as consequências daí derivadas, em termos de conflitualidade intervizinhos, neste caso denominados condóminos, e de repercussões no espaço exterior de arruamentos e jardins das redondezas. Por que têm as pessoas cães em casa?

A resposta não será unívoca, pois passa pelo território da solidão e do isolamento, das reminiscências de raízes rurais ainda presentes no inconsciente do urbano e da sua ligação afectiva àquele companheiro doméstico, da necessidade de se sentirem mais seguras pela proximidade de tal companhia e, também, por uma certa "moda", que apela à empatia por estes animais e gratifica no inconsciente o gesto do seu protector.

Até aqui tudo certo, são razões sociais e sociológicas e dos misteriosos territórios dos afectos, por vezes até desajustadas das circunstâncias espaciais e materiais de suporte a tais hábitos e comportamentos, mas a decisão ou compromisso de ter ou adoptar um animal da raça canina, arrasta outras implicações de responsabilidade e convivialidade urbana que não podem nem devem ser ignoradas.

Implicações sanitárias e higiénicas, sobretudo, na medida em que "o bicho", por muito simpático e de bom feitio que seja, tem os seus humores e naturais irritações, tem voz e chega a incomodar quando a usa com destempero, tem necessidades fisiológicas e não prescinde delas, mesmo que disciplinado em horas e modos de as satisfazer.

Significa isto que derivam daqui compromissos e responsabilidades para os donos que estes não podem enjeitar, trazendo simplesmente os bichos à rua para fazerem as suas necessidades atrabiliariamente em qualquer canto ou esquina, muitas vezes à porta do prédio vizinho, quando não do próprio prédio. Dir-me-ão que tal é uma questão de educação e civismo, não dos caninos a quem não se reconhece racionalidade, mas dos donos que, por desleixo e pouca preocupação com o "bicho", expressam o seu baixo padrão educativo e cívico.

As câmaras, o Porto é um exemplo recente, têm vindo a criar "apoios" em locais estratégicos para colmatar esta falha, mas não podem ter um fiscal ou outro funcionário que seja, atrás das meninas e senhoras, cavalheiros e jovens, que ao fim da tarde ou cair da noite, sobretudo, saem à rua com o seu cão para este se desembaraçar dos seus apertos intestinais. É lamentável ver-se o descaramento, o termo popular seria "a lata", com que tantas pessoas incentivam o seu "animal de estimação" a defecar no meio do passeio, no canteiro mais próximo ou na esquina do prédio e seguem calmamente, como se aquilo fosse um direito, não do bicho, claro, mas do dono do bicho, que quer exibir o seu estatuto de portador de canino sem arcar com os deveres inerentes.

Tudo isto não é mais do que falta de civismo e, se pensarmos bem, talvez seja até o espelho público dos comportamentos privados de muita desta gente. Andou bem a câmara portuense e outras, em dotar locais potencialmente mais concorridos de caninos de recipientes com plásticos de apoio para que os donos dos ditos não precisem de trazer o saquinho de plástico de casa, mas, como já referido, isto é o contributo dos dinheiros públicos da autarquia, ou seja, de todos nós. Agora, daqui para a frente, está o dever e a educação de cada um, e, sobre isso, nada melhor que cada um responder a si próprio, pensando nos outros, mesmo que eles o não estejam a ver.

Que diacho, será isto uma cãotradição tão difícil?

Autor: José Mota

http://jn.sapo.pt/2006/08/30/porto/caotradicao.html