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Artigos  » Crónicas » Histórias Felizes

Cherrie Manuel

Eu tinha 7 aninhos. Morava na Sé do Porto como toda a minha família. Um dia a brincar na rua a minha avó chamou-me: "Anda lá a casa, Cristina, a avó tem lá um gatinho bebé muito lindo. Anda lá a casa vê-lo!" Não me lembro qual era a brincadeira que me ocupava o tempo da infância naquele instante. Só sei que saí a correr sem dar explicações às minhas companheiras e corri até à Pena Ventosa para ver o gatinho bebé.

Muito bebezinho mesmo! Muito clarinho, só as extremidades das patinhas, o focinho e as orelhinhas espetadas eram de castanho mais escuro. Miava muito! "Chama-se Cherrie" - disse a minha avó! Cherrie??? - pensei eu - Que nome feio para um gato! Ou terá sido a minha avó, ou a minha mãe que já tinha tido um cão com o mesmo nome a baptizarem o bichano. Ainda hoje não sei, porque ambas reivindicam a autoria de tal nomeação.

O que é certo é que o bichinho, passados alguns dias, mudou-se para a Rua das Aldas, onde eu moarava então. "Mia muito o gato" - queixava-se a minha avó. "Mia de noite e de dia e não nos deixa dormir; Fica-me com ele só esta noite para que eu possa descansar" - pediu a minha avó ao meu pai. E aquela noite durou 17 anos.

O bichano foi crescendo na Rua das Aldas, lindo, esbelto, elegante, acompanhado por mim e pela Carla, a minha irmã, (que hoje afirma não se lembrar de existir sem o gato).
Quando largou o leitinho em "maminhas de algodão", ía-se ao peixe à Rua Escura para o bichano. Era uma pescada especial para o Cherrie bebé a crescer. A Carmindinha já sabia. Quandos nos via a chegar:" É peixinho para o gatinho, amor?"

Mudamos de casa três vezes! E o bichano veio sempre connosco. A príncipio estranhava, mas lá se ía habituando. Adaptou-se bem à casa da Rua Chã, onde havia muitos telhados e muitos outros gatinhos para ele brincar. Aí foi, sem dúvida, o tempo mais feliz da sua vida. Caçava ratos, andava às gaivotas e às pombas, corria por aquela imensidão de telhados, e punha-se ao sol, mesmo em cima do telhado que ficava em frente à nossa varanda para nós o admirarmos. Com os outros bichanos da vizinhança dava-se bem, mas nada de muita confiança!

Pombas nunca matou, excepto quando nós íamos de férias e ele lá ficava sozinho. A minha tia ía lá dar-lhe de comer. E ele, pobre do meu bichano, ficava tão histérico com a ausência dos donos, que só nessas alturas, dia sim, dia sim trazia um bicho moribundo para a varanda e largava-o ali depois de morto.

Quando o trouxemos para esta casa, onde vivemos agora, custou-lhe a adaptação: apartamento, 2º andar, sem telhados e sem gatinhos, sem pombinhas e sem gaivotas. O bichinho vivia fechado aqui em casa. Mas nunca lhe foi vedado o acesso a nenhuma divisão da casa. Excepto à cozinha, quando a mãe estava a preparar o jantar. Ele era capaz de estar horas a miar e a andar à roda em volta de quem estivesse a comer ou a preparar o jantar. O Wc de serviço era só dele. Todas as camas e sofás eram o seu leito. Todos mesmo.

Apesar de toda esta ternura a minha mãe não lhe tocava. Trazia-lhe a comidinha, mudava-lhe o caixote da areia, tratava-o bem, sem lhe dar um mimo. Até que... aconteceu o divórcio e o meu pai saiu de casa. E nessas alturas em que a mãe era só lágrimas e agonia o meu bichanino não a largava. E dava-lhe turrinhas, e muitos ronrons, e limpava-se as lágrimas com a linguita cor-de-rosa com piquinhos. E deixou-nos a nós, a mim e à Carla, para ir dormir com a mãe.

E mãe que nunca antes tinha tocado neste ou noutro gato com ternura, passou a tocar. Todos os dias. Não havia dia que chegasse a casa e que não procurasse o bichano para lhe fazer festinhas, para o informar que tinha chegado a casa, com a paparoca, com o miminho de quem a aguardou todo dia.

Depois apareceu a Creta, a cadelinha que cá esteve em casa durante uns meses que fazia mil travessuras ao meu bichano. Comia-lhe a comida, trincava-lhe as orelhas e ele muito pacífico só lhe mostrava os dentes e lhe esticava a pata de vez em quando. Mas depois começaram a dar-se mesmo muito bem, brincavam e dormiam juntos. Mas a Creta mudou-se para a Rua das Aldas onde morou o Cherrie quando era bebé, para fazer companhia à minha outra avó. E o Cherrie ficou depressivo e teve tinha. E nós também. Mas o doutor receitou um remédio e ficamos todos bem rapidamente. Apesar de tudo, com o tempo, ele ficou feliz por ser outra vez o único menino da casa. E às vezes a Creta vinha visitá-lo e brincar com ele.

E por vezes fugia-nos para as traseiras. Saltava a janela e ía brincar. E quando voltava, trazia companhia, ou melhor, muitas companhias microscópicas. Mas tudo se resolvia com os remédios que o Doutor receitava.

E quando o bichano começou a tropeçar nos saltos que dava para cima da mesa, quando lhe começou a custar saltar para o nosso colo, havendo a necessidade de sermos nós a puxar pelas patinhas. Quando deixou de brincar com meias, fios, bolinhas e outras coisas roliças de fácil movimentação. Quando já só dormia quase todas as horas que o dia tem, percebemos que tinha passado a infância do Cherrie, O Cherrie Manuel - como eu lhe gritava quando ele arranhava os sofás. Tinha passado a sua adolescência, e a idade adulta. A terceira idade tinha chegado. O meu Cherrie - sempre o meu menino lindo, o meu bebezinho, a "fofura da minha doninha", a coisinha mais linda do mundo todo - estava velho, cansado e começou a ficar doente e deixou de miar (sim, porque até então miava sempre, fosse pelo que fosse).

Começámos a sentir que ele queria partir. Mas não cedemos à primeira. Foi ao Doutor que lhe diagnosticou uma insuficiência renal e lhe receitou um tratamento que só adiou o inevitável. O bichano reagiu bem durante 3 ou 4 dias, mas logo se deixou abater novamente. E ficou magrinho, e os olhitos deixaram de ser azuis e ficaram escuros, cada vez mais escuros e desapareciam cada vez mais. E deixou a paparoca e vomitava o óleo de fíagado de bacalhou que o doutor receitou. E tudo que lhe tentávamos atirar para a goela num acto desesperado de o prender à nossa vida mais uns anos - ele rejeitava - como se nos dissesse que queria mesmo partir.

E cheguei a casa um dia e não aguentei mais vê-lo assim. Trazia uma paparoca nova e diferente, mais cara e tudo! E ele não quis. Então eu cedi ao seu pedido e às convicções da mana e da mãe que já tinham dito que o melhor era a pica. Só estavam à espera da minha aprovação. E tiveram-na naquele dia. No dia em que até água o meu Cherrie deixou de beber.

E depois de o ter abraçado a mim durante alguns minutos, a minha irmã, que não se lembra de existir sem o gato, levou-o e assistiu à pica: "Dois segundos, mana, durou só dois segundos. Não doeu nada e ele ficou em paz". Foi enterrado com a mantinha preferida dele. Para não ter frio no Céu dos Gatinhos. Ficou no jardim do Ruben, que foi namorado da mana e é muito amigo da família e dos gatinhos.
Hoje tenho 23 anos e sei que o mais importante foi partilhar com ele a infância, a adolescência e a entrada na idade adulta.

Ah... O Bichano nunca perdoou o meu pai por ter saído de casa. Uma altura ele veio cá jantar e o gato miou-lhe, bufou-lhe e arranhou-o.

Espero, contudo, que me perdoe a mim, do tempo que não estive em casa e podia ter estado, das palmadas que lhe dei quando ele arranhava os sofás ( tivemos 3 conjuntos de sofás diferentes - todos destruídos por ele) e de ter sido a minha palavra decisiva para o levar à pica.
Penso que sim, que ele perdoará, onde quer que esteja, sei que ele continua a amar-me muito e eu a ele, para sempre! Para sempre o meu Cherrie Manuel, para sempre o meu menino lindo!



- Cherrie (Lídia Cristina) [ Europe/Lisbon ] 2004/06/03 13:51

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» Irina_Carmo ( Irina Carmo) » [ Europe/Lisbon ] 2005/04/30 23:08
Queria dar os parabéns por esta magnifica historia de amor =) É gratificante saber que com tanta gente má neste mundo ainda existem pessoas que se preocupam verdadeiramente com os animais. =)

» mimina ( Ana Margarida dos Santos de sá Pereira) » [ Europe/Lisbon ] 2004/07/22 14:55
Olá lídia, a história do cherrie é mesmo linda até chorei, eu tenho um gato com 15 anos o leu, siamês e ao ler o que aconteceu ao cherrie compreendo que a opção de deixá-lo ir foi a melhor ....fiquei com medo de ver o leu a sofrer visto ele já lhe custar a saltar, mia devagarinho é dificil vê-lo envelhecer mas é um privilégio...........o amor é eterno tal como a vida só mudamos de dimensão..........

» Cheetah ( Rita Silva) » [ Europe/Lisbon ] 2004/06/30 18:18
pronto, já estou de lágrimas nos olhos...a história é linda.

» ZicaCabral ( Zica CAldeira Cabral) » [ Europe/Lisbon ] 2004/06/27 06:33
adorei o relato. Que comovente. Acho que todos os nossos irmãos de 4 patas, sejam eles o que forem, se são amados e amaram-nos nunca serão esquecidos. Parabéns

» thebwitch ( Valentina Grácio) » [ Europe/Lisbon ] 2004/06/17 15:24
É assim.São companheiros de uma vida e quando partem deixam-nos a saudade.Parabéns Lidia pela tua história.

» sabss ( Sónia Santos) » [ Europe/Lisbon ] 2004/06/11 12:23
Adorei esta história! Grande homenagem ao Cherrie Manuel!!! Parabéns! smile.gif

» hecep ( Helena Cepeda) » [ Europe/Lisbon ] 2004/06/07 13:22
Eles sabem quando chegou o momento da partida. Tenho a certeza que ele compreendeu. Era lindo o Cherie

» Assunção ( Assunção Baptista) » [ Europe/Lisbon ] 2004/06/03 23:17
Pelo menos tiveste a honra de ter a companhia e o amor do Cherrie durante algumas décadas...
Nunca te esqueças dele!

» Cherrie ( Lídia Cristina) » [ Europe/Lisbon ] 2004/06/03 18:10
Fico muito feliz com estas palavras de conforto, muito mesmo! Obrigada biggrin.gif

» Inner_Silence ( Leonor Calaça) » [ Europe/Lisbon ] 2004/06/03 15:09
O Cherrie Manuel foi amado, sim, e ele sabia, mesmo quando ainda não tinha festinhas... Ele sabia que era uma questão de tempo! Belo relato, até fiquei com o cantinho do olho húmido... smile.gif

» MJGM ( Maria João Martins) » [ Europe/Lisbon ] 2004/06/03 14:40
'Cherrie'... de 'querido', 'muito amado'... para sempre!

» Rowan ( Ísis Calió) » [ Europe/Lisbon ] 2004/06/03 14:06
Nossa q relato lindo!!! Ele com certeza estará olhando por vocês!!! Sempre!! Meus sentimentos!!! Fiquem bem!!! Espero q adentre outros animais em vossas vidas!! biggrin.gif Sempre tem um animalzinho q precisa de nós!!

» sregina ( (susana)) » [ Europe/Lisbon ] 2004/06/03 14:06
Testemunho lindo e sentido, Lidia!! Por mais animais especiaias que venhas a ter, esse vai ser sempre o teu menino!!
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